Jogos que marcam – Heavy Rain

Perplexo com o que se está a passar no ecrã, as minhas mãos acabam por ceder e o caos emocional acontece. Foi assim que me senti no final de Heavy Rain.

Com muitos anos de comando na mão, raros foram os momentos que me deixaram assim. Emoção nos videojogos não é nada de novo e mesmo nos jogos mais coloridos o ser humano descontrola-se. Mas em Heavy Rain, o drama ganha proporções nunca antes alcançadas.

Com o inicio do jogo, tudo nos parece superficial. Acordar, fazer a barba, comer qualquer coisa… tudo tarefas de rotina. Depois entram os filhos e as brincadeiras. Acções nada habituais num videojogo, mas que quando inseridas num título que desde o inicio nos propõe uma experiência cinematográfica, fazem sentido. A chave de tudo isto é que todas estas acções só ganham relevo à medida que vamos avançando no jogo. No final, tudo se enquadra e percebemos que esta fase inicial existe claramente para contextualizar o desenrolar de toda a trama. A fazer lembrar o filme Crash ou Magnolia, as 4 personagens que compõem o casting oferecem diferentes perspectivas do que se está a passar, e a ligação entre elas é muito interessante de se seguir. A chuva constante lembra-nos Blade Runner, a visita à habitação de um possível criminoso recorda-nos Seven, e uma das várias situações com uma forte componente psicológica é uma homenagem a Saw.

Heavy Rain está cheio de pormenores que normalmente só figuram numa película cinematográfica. E é aqui que se deve dar todo o crédito aos criadores deste videojogo. Numa indústria que tem tudo para oferecer diferentes experiências aos seus utilizadores, a idealização de um título adulto que não recorre à violência mas sim à maior essência de qualquer um de nós, a emoção, era até hoje um campo muito pouco explorado. A evolução dos videojogos pode seguir muitos sentidos, e este é certamente um deles.

Num jogo em que o enredo tem o papel principal, os outros aspectos que compõem um videojogo acabam mesmo por perder o peso habitual. Mas também aí Heavy Rain não desaponta. Apesar de não ser perfeito, longe disso, o jogo tem um aspecto gráfico espantoso. Os objectos que encontramos nos cenários são extremamente bem trabalhados, a imagem negra e dramática é sempre exímia, com a chuva a ajudar a criar um ambiente pesado. A caracterização das personagens está ao melhor nível, com detalhes espantosos ao nível da recriação dos olhos e da pele, mas a animação facial das personagens nem sempre é a melhor e isso não é bom quando um jogo depende tanto de emoções. Felizmente, a banda sonora é bastante boa. Sempre num tom pesado, a música ajuda a criar a tensão certa no momento certo.

A jogabilidade de Heavy Rain é estranha e limitada. Não podemos fazer muito mais do que andar e interagir com alguns objectos. Mas, mais uma vez, creio que a ideia dos criadores foi focar a atenção do jogador naquilo que mais importava – a história e os diálogos.

Heavy Rain fica na história por quebrar barreiras ainda impostas aos videojogos e por conseguir deixar o jogador incomodado com o que está a ver. É verdade que não é um jogo que vá agradar a todos e aos jogadores que não vêem com bons olhos a sinergia entre o cinema e os videojogos, mas isso irá sempre acontecer com títulos que procurem encontrar o equilíbrio entre estas duas indústrias.

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